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Ondas de choque

Ondas de choque: para quem funciona melhor — e para quem não é a resposta

As duas principais diretrizes internacionais não dizem a mesma coisa sobre esse tratamento. Entender por que elas divergem é o que permite decidir com clareza.

3 min de leituraProcedimentos · Saúde sexual · Evidência e mitos

Duas poltronas frente a frente com mesa baixa junto à janela ampla de um consultório com plantas — quem é candidato à terapia por ondas de choque

Quem pode fazer tratamento com ondas de choque para disfunção erétil?

O perfil que mais se beneficia nas revisões disponíveis é o de disfunção erétil de origem vascular, de grau leve a moderado, em pessoas que respondem parcialmente aos medicamentos orais. A diretriz europeia considera que a terapia pode ser oferecida nesse cenário; a diretriz americana a classifica como investigacional e recomenda que seja conduzida em contexto de pesquisa. Não é indicada para disfunção de causa predominantemente psicogênica nem para quadros graves, em que outras condutas têm resultado mais previsível.

Duas diretrizes, duas leituras

Quando duas das principais entidades urológicas do mundo olham para o mesmo conjunto de estudos e chegam a recomendações diferentes, isso costuma dizer algo útil sobre o estado da evidência.

A diretriz europeia admite que a terapia por ondas de choque de baixa intensidade pode ser oferecida a pacientes selecionados — tipicamente disfunção erétil vascular leve a moderada, e pessoas com resposta parcial aos medicamentos orais.

A diretriz americana classifica a terapia como investigacional e recomenda que seja conduzida sob protocolo de pesquisa.

As duas concordam no diagnóstico do problema: os estudos disponíveis são numerosos, porém pequenos, com protocolos heterogêneos e seguimento curto. Divergem no que fazer com isso.

Essa divergência não é motivo para descartar o tratamento — é motivo para apresentá-lo com honestidade sobre o que se sabe e o que não se sabe.

Quem tende a responder melhor

O perfil que aparece com mais consistência nas revisões:

  • Disfunção de origem vascular, e não predominantemente psicogênica ou neurológica.
  • Grau leve a moderado, medido por questionário de função erétil.
  • Resposta parcial a medicamento oral — a pessoa melhora com a medicação, mas não o suficiente, ou gostaria de reduzir a dependência dela.
  • Fatores de risco sob controle, ou pelo menos em tratamento.

Quem provavelmente não é candidato

Quadro predominantemente psicogênico. Ereção matinal preservada, desempenho que varia conforme parceiro ou contexto, início súbito associado a evento de vida. Aqui a abordagem é outra.

Disfunção grave, sobretudo de longa data, em contexto de diabetes de longa evolução ou pós-prostatectomia. Não significa que não haja o que fazer — significa que existem condutas com resultado mais previsível.

Causas não investigadas. Iniciar o procedimento sem ter olhado testosterona, medicações em uso, apneia do sono, pressão e glicemia é começar pela ponta errada. Antidepressivos e anti-hipertensivos de certas classes, por exemplo, são causa frequente e reversível.

Contraindicações locais. Infecção ativa, lesão de pele, tumor na área, e cautela em uso de anticoagulantes.

Peyronie é outra conversa

Uma confusão comum: ondas de choque para doença de Peyronie não é o mesmo tratamento com a mesma expectativa.

Para Peyronie, o que as revisões apontam é possível efeito sobre a dor, sem demonstração consistente de redução de curvatura ou de tamanho da placa. Alguém que procura o procedimento esperando endireitar a curvatura está partindo de uma expectativa que a literatura não sustenta.

Como decidir

Três perguntas, feitas antes de começar, resolvem a maior parte das dúvidas.

Minha disfunção foi investigada? Exames hormonais, revisão de medicações, avaliação cardiovascular e de sono. Se não, esse é o primeiro passo.

Em que grau eu estou? Um questionário validado, aplicado antes, é o que permitirá saber depois se houve mudança.

O que exatamente se espera, e em quanto tempo? Se a resposta for uma promessa de resultado garantido, desconfie — nenhuma diretriz autoriza essa afirmação.

O procedimento tem lugar legítimo no arsenal, para o perfil certo. O que não tem lugar é oferecê-lo como solução universal para uma queixa cuja causa não foi procurada.

Perguntas frequentes

Por que as diretrizes divergem?

Porque elas pesam de forma diferente a mesma limitação: os estudos existentes são numerosos, mas em geral pequenos, com protocolos heterogêneos e seguimento curto. A entidade europeia considera esse conjunto suficiente para oferecer a terapia em cenários selecionados; a americana considera que ele ainda não sustenta recomendação fora de pesquisa. Nenhuma das duas afirma que o tratamento não funciona.

Funciona para disfunção de causa psicológica?

Não é a indicação. O mecanismo proposto atua sobre a circulação local, e um quadro predominantemente psicogênico — que costuma cursar com ereções noturnas e matinais preservadas e com desempenho variável conforme o contexto — pede outra abordagem. Aplicar o procedimento nesse caso é tratar o que não está alterado.

Serve para doença de Peyronie?

É uma indicação diferente, com evidência diferente. Para Peyronie, as revisões apontam possível efeito sobre a dor, sem demonstração consistente de redução da curvatura ou da placa. Ou seja: pode ajudar num sintoma específico, e não corrige a deformidade.

Existe contraindicação?

Sim. Não se aplica sobre área com infecção ativa, lesão de pele local, tumor na região, e há cautela em uso de anticoagulantes e em portadores de distúrbio de coagulação. Também não faz sentido iniciar antes de investigar causas tratáveis, como alteração hormonal, medicação em uso e doença cardiovascular não avaliada.

Referências

  1. EAU Guidelines on Sexual and Reproductive Health. European Association of Urology.
  2. Burnett AL, et al. Erectile Dysfunction: AUA Guideline. American Urological Association.
  3. Sociedade Brasileira de Urologia.

Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica. Diagnóstico, indicação e prescrição dependem de avaliação individual.

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